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Quando Acaba

Dica: Música



Quando acaba e você fica com tudo o que vocês construíram, sentimentos, memórias, segredos, intimidades, tudo na mão e simplesmente gira para todo lado sem saber onde colocar, uma sensação de estar perdida. Eu não estava preparada. Agora fico segurando tudo isso sem saber onde deixar, por favor, não me faça carregar e guardar, dói tanto. Eu só queria me livrar disso aqui, e eu procuro incessantemente alguém para te substituir e eu ter com quem carregar tudo isso. Como se mudar o personagem realmente fosse resolver as coisas, como se ele não fosse simplesmente me somar coisas ao invés de carregar as nossas. Eu preciso de alguém para amar, eu preciso colocar esse amor todo que sinto por você em algum lugar, eu tinha tanto para te dar, agora está tudo sufocado aqui dentro, por favor, eu estou enlouquecendo. Eu quero você de volta, por favor, ao menos até eu dar tudo o que eu ainda queria te dar, tudo que eu ainda queria te mostrar, tudo o que eu ainda queria te fazer sentir, tudo o que eu ainda queria sentir mais e mais, parece que eu aproveitei tão pouco e agora esses sentimentos estão aqui, com a bateria toda esperando ser gasta, estão a mil, por favor me use, pelo menos até se esgotar, eu sei, nada disso faz sentido e teoricamente o meu sentimento por você só iria se fortalecer, mas é que eu realmente não sei onde colocar todas essas coisas que você não quis mais.
     Que ridículo, eu sei. Eu pensei que eu nunca fosse chegar ao ponto de te implorar, será que você vai ler? E se ler, já é tarde demais? Talvez. As lágrimas já não me parecem suficiente e o quanto o orgulho pesa por não te esquecer e me permitir sofrer. Quanto tempo dura? Ninguém parece entender que dois meses não são suficientes para eu já ter te deixado ir. Está chorando por quê? Não era óbvio? Por que não ainda chorar por ti em um dia de chuva daqui uns dois anos só por lembrar que você me ligava toda madrugada?
    Eu sei, não foi pouco tempo, ou talvez foi, mas foi tão atemporal para mim que foi quase como um sonho, quando acordamos parece que durou uma eternidade e aí quando falamos do sonho dá a sensação de que na verdade só foram cinco minutos. Pelo menos eu ainda tenho esses milhares de textos estúpidos onde eu posso te gravar e te viver o resto que sobrou, até que todas essas coisas virem ódio, virem raiva, virem mágoa, até meu peito não saber mais qual caminho escolher. Até eu querer te perdoar e não conseguir. Até eu querer ainda ter tudo isso nas minhas mãos, até tudo ir diminuindo, quase se apagando e virando somente lembranças que não fedem nem cheiram, como uma velha vela apagada. Quanto ao amor que sobrou, decido colocar em mim, não sei se vou conseguir, mas há tempos que me faltava e me gritava para ser atendido.



2/3 de Partir

 Ler também: 1/3 de Partir
Dica: escute "Teddy Bear", Melanie Martinez

   A dor se tornou maior, desculpa meu amor não aguento mais, é que o amor próprio está gritando. É que eu já estava ficando mais por você e por nós do que por mim. Não vou mentir pra você, você me conhece muito bem estava certo todas as vezes que disse "eu te conheço, sei que você é dessas que esquece, que supera. Você é assim.". É eu sou assim, mas não esqueço não, sim sou apegada até chegar o ponto que me faz mal, é que eu não sei mais perder tempo sofrendo por dias. Eu aprendi, mas hoje já é natural, choro até perder o fôlego e daqui dois dias ou menos já estou com as minhas baboseiras. Já superei. Eu sou assim, e você sabe, mas não sofrer não significa que não valorizo e nem deixei de te amar. Só significa que eu aprendi a lidar melhor, a seguir em frente e que eu aceito as coisas com mais facilidade e calmaria, não coloco pontos finais em nada, só reticências, porque a única coisa tão certa quanto o ponto final é a morte, então não ache que superar é colocar um fim e deixar de ter os sentimentos, só significa que nessa fase não estamos nos fazendo bem e precisamos aceitar isso com maturidade, seja paciente, não anseie, não coloque certezas, deixa tudo livre e aberto. Estou pedindo demais, né? É sempre assim, você surta, a gente quase morre e continua.
    É que eu nunca perco a esperança em você. Mas caso eu estiver pedindo demais, só te peço uma coisa. Peço que, então, você vá de vez, sem voltas, sem olhar para trás, sem se arrepender. E que eu te supere como superei uma vez. Que eu guarde uma boa lembrança de você, você disse que queria ser lembrado assim, uma pessoa que eu amo, não foi? Então que você vá, mas vá de verdade. Apague meu número e nossas conversas. Que você vá, mas vai logo porque ir aos poucos machuca demais, é um ir meio que não sei se fica não sei se vai e meu coração não consegue viver de incertezas. Ele quer você todo ou então ele não quer nada. Que você vá e não me procure mais. Que você vá e dê graças que foi embora. Porque não quero que se arrependa, sofra e volte pra perturbar meus sonhos. Porque você é assim, nem fica nem vai embora. Deixa ir e implora para voltar. Você abre o livro, mas não lê. Você destranca a porta, mas não abre. Você se entrega, mas finge não ver. Você surta em silêncio, rasteja como uma cobra e abre o circo feito um palhaço. 
   Se eu quero que você vá? Ah não, como eu queria ter você... Mas sinto que nem te tenho mais, sinto que você nem existe mais, sinto que alguém o tirou de você mesmo, você não é o você que eu conheço. E tudo bem, as pessoas mudam, e se você mudou comigo eu mudo com você também, abrindo as portas pra te libertar. Vá com vontade e de peito aberto pra conhecer um novo mundo porque talvez o meu não te sirva mais. Vá e me deixe aqui despedaçada, porque eu sei juntar, só não fique e pise nos cacos. Vá, se sentindo aliviado de que fez a coisa certa e tirou um peso da sua vida. Vá com um sorriso porque não quero suportar caso doa em você também. Vai, me deixa aqui sozinha, deixa eu chorar o que eu tiver que chorar, só me deixa, não pergunta nada não. Se não é para resolver, para que quer saber? Não encosta em mim não, não te reconheço mais e suas mãos não são mais as mesmas, elas não querem me tocar e nem eu quero ser tocada pela rejeição. Se não quer me ajudar a curar, por favor, eu te imploro que só vá! Vá porque não aguento mais sentir saudade de alguém que não existe mais quando falo com você. Vá porque prefiro sentir aquele resto de saudade pura daquilo que tivemos, do que a sensação de te perder toda vez que você vem. Prefiro que você vá logo do que te ter mais ou menos.... Te ter só parece um resultado de você se sentir na obrigação por algumas vezes ter dito que era para sempre, não quero. Quero o seu querer, e se você não quer, não quero. E caso se força querer, ainda assim não quero. Se você acha que eu não te encanto mais, que virou mais rotina do que surpresa, se você quer ir, mas tem medo de sair da sua zona de conforto, se apresse antes que eu vá. Prefiro me cortar logo do que me ferir aos poucos. - Luísa Monte Real 

(Continuação em breve...) 

Para o meu Ratinho de Laboratório

x 

   

    Seu jeito de viver e sua história sempre foram muito intrigantes e até mesmo angustiantes para mim. Perguntava-me sempre como alguém poderia ter namorado tanto, diversas garotas desde tão novo, se dizia "vivido". Não era possível que você conseguia achar o amor assim tão fácil e ficar trocando ele de mão em mão, e volta com a outra mão, agora essa, e uma salada de sentimentos. Ao mesmo tempo você era o senhor sem sentimentos, que só queria curtir, mas que não podia ficar sozinho. Por muito tempo acreditei nessa versão de que você simplesmente nunca havia amado nenhuma delas, nunca havia se apaixonado de verdade, nunca havia sentido nada e que todos os seus relacionamentos eram vazios, carnais, status. Por muito tempo essa ideia me satisfez de certa forma, mas sempre tive uma pulga atrás da orelha porque eu via que você sentia algo, eu via que você não era quem se mostrava ser, você também sabia disso, só escondia e dava a si mesmo a desculpa que não sabia lidar com sentimentos e pronto, deixava eles de lado.  

  Hoje, vejo que sim, você achou sentimentos em vários corpos, que você realmente experimentou diversas emoções, que você era vivido realmente, mas hoje também não acho que isso tenha sido sorte. No meio de tanta vivência você nunca parou para crescer e se observar. Uma vez li "felicidade não é quantidade", é verdade, a felicidade está na qualidade, e parece que você sempre esteve mais preocupado com o número, mais preocupado com o futuro, com o fato de não se apegar, não se entregar para não se dar mal no final, você sempre terminava antes mesmo de começar, ferrava o outro antes mesmo de ele te ferrar, sempre na defensiva e nunca se permitindo de fato entrar de cabeça. Talvez, por medo do novo e para se convencer de que não dava para ser de outro jeito, você só se relacionasse com parceiras tão parecidas com você, e você se tornava cada vez mais parecido com elas também. Pega, mas não se apega. Talvez para não ter que se deparar com uma nova possibilidade de ser, você só fizesse amizade com homens iguais e com o mesmo pensamento que você.  

   Apesar de eu admitir, hoje, que seus relacionamentos não eram tão superficiais assim, também não acho que você tenha encontrado o amor repetidas vezes. Até porque amor não se encontra, se constrói. E no meio de tantas mulheres, teve pouco tempo para focar e investir em um possível amor em cada relacionamento que teve. Hoje, vejo seus relacionamentos como válvula de escape. Você procurava incessantemente estar vivenciando diversas emoções para tapar um vazio dentro de você, e essa pose de "sem sentimentos" era você querendo enganar sua própria busca pelo amor. Você buscava amor em todos os corpos, em todas as emoções, algo que te provasse que você estava vivo. E ser desejado, amado parecia ser o único jeito de encontrar sua existência. Carência. Você era carente de sentimento e transbordado por emoções. Você preferia viajar do que estar em sua própria realidade, não era nem vício químico, era psicológico. Uma busca incessante por adrenalina, festas, estrada, carro em alta velocidade, acidentes, aventuras. A todo momento testando seus limites, saindo da sua própria realidade. É que você queria se provar que estava vivo, e em um paradoxo, se colocava em situações que punham ela em risco, é que você queria ter a certeza de que estava vivo em outra realidade.    Você tinha uma sede pelo controle por conta do medo de perder, o medo de ficar sozinho. Você buscou tanto que criou um ciclo vicioso, até mesmo quando não queria, lá estava você, de novo, em um relacionamento em que te dissesse que você não estava sozinho, e tá bom, você até gostava delas, você se apegava, podia até se apaixonar, mas não se desprendia de outras e de seu ciclo. Seu ego precisava ser alimentado o tempo inteiro. E por isso seus relacionamentos continuavam sendo superficiais no final das contas. Continuavam porque eram todos a respeito do seu ego, do seu vazio, da sua falta, da sua sede de amar e ser amado, mas principalmente dos seus medos nunca enfrentados. E você via que com esse seu jeito você deixava escapar relacionamentos que pudessem ter o amor que buscava e aquilo te machucava, você se culpava. Mas você não mudava. Ninguém te ensinou o que era amar e obviamente você foi se cansando dessa vida acompanhada mas solitária, você nunca se amou, só se frustrava.  

   E quando você se viu com ela,  alguém que te conhecia por inteiro, que te fazia se amar e te mostrava o que era amor, uma pessoa que não queria só te ter, uma pessoa que não somente estava apaixonada por sua beleza e seu papo bom, mas que queria te fazer crescer, que te amava, você teve medo. Quando você encontrou o que buscou, você desperdiçou. Você estava saturado de falsas impressões, falsas sensações e emoções forçadas. Estava saturado de achar que era amor e perder, saturado de se machucar, saturado de sentir. Alguém que tanto negava os próprios sentimentos, mas que estava sempre em busca deles sem nem perceber. Espero que agora você consiga se dar uma pausa. Espero que você fique sozinho por um tempo. Que você mergulhe no seu interior e se encontre. Que você se aceite. Que você mude e se transforme. Que você se presenteie com o melhor que você pode: o amor próprio e terapia. Que você veja o que você tanto busca, mas que você não perceba que você teve o que buscou e jogou fora. Ou que perceba, mas se perdoe, que não se culpe e entenda que aquela não era a sua hora, ou que talvez não tenha hora, mas há coragem. E que encontre uma nova hora de ter coragem da forma mais linda e surpreendedora, e se for possível, não deixe escapar. 

A Sereia que não estava lá


 

O que é o que é? 
Tem calda, mas não tem pé 
É peixe, mas não é 
Vive no reino do mar
Mas ela morre de curiosidade de sair de lá 
Ops, já disse que é ela.
Ela que é bela 
Canta na pedra 
Para enfeitiçar.
Penteia seus longos cabelos 
Para me conquistar 
Me pisca um olho 
Para me apaixonar 
Um dia prometi lhe dar tudo que sonhava 
Levei ouro 
Levei prata 
Levei espelho 
Levei brincos e colares 
Levei tudo que possa desejar 
Decepção. 
Ficava triste, mas logo voltava a cantar
Sentia que queria me enganar
Um dia, levei uma caixinha de música 
Um casal dançava dentro dela 
Ela olhou, olhou 
Não parava de olhar 
Uma lágrima escorreu 
E saltou para o mar.
Foi quando entendi que ela só queria alguém para amar 
Pois então, eu ia todo dia voltar
Para seu amor reconquistar,
E todo dia eu encontrava 
A sereia que não estava mais lá. 
- Luisa Monte Real 

1/3 de Partir

 
  Dica: Música "Training Wheels", Melanie Martinez 

    Um dia acordei e você estava estranho. Tudo bem, a gente tinha tido uma briga, muito idiota por sinal. Eu continuava com muitas coisas a te dizer entaladas em meu peito. É que a gente sempre foi muito sincero, e meus desabafos sempre te pertenceram. Não sabia se dessa vez eu deveria guardar para mim porque pela primeira vez não sabia como você reagiria e lidaria com a bomba que eu iria lançar. Mas você me conhece, eu sempre escolho a sinceridade e a transparência. Você logo percebeu que eu estava entalada e me ligou, se importou. Eu disse tudo, mas você disse que não ia falar mais nada, como da última vez que tínhamos brigado. Tenho certeza que você tinha o que dizer, mas aposto que seu orgulho de manter sua promessa consigo mesmo te fechou, não é?! Você preferiu guardar tudo para si bem, bem lá dentro fingindo que não tinha nada. Fingindo que não te afetava. E fez isso porque te afetou demais, não é?! Mas eu te estendi a mão, a gente sempre foi o apoio um do outro, desabafei colocando soluções para nós dois. 
    Seria tão mais fácil se você cedesse, se você se permitisse, mas você estava com tanto medo de se entregar, tanto medo de se machucar... lidar com você era exatamente como “Training Wheels” de Melanie Martinez. Acredito que tudo que lhe disse de alguma maneira fez você voltar as várias casas de nosso pequeno joguinho que gosto de chamar de nossa vida juntos. Achei que com o tempo afastado de mim, a saudade te curaria, sua confiança em mim voltaria e sua pecinha do jogo se encontraria na mesma fase que a minha outra vez. Mas eu não sei, você não se afastava, você vinha. Mas eu não queria você, você vinha me machucar, não por querer, mas sua barreira me impedia de me conectar com você e eu me sentia cada vez mais jogando o jogo sozinha. É talvez eu chegasse no final e vencesse, mas eu não queria se não fosse com você. Eu te perguntava o que era e você dizia que eu era louca, que era coisa da minha cabeça, que eu tava viajando... ai, isso me deixava com uma raiva tremenda!
    Cheguei a pensar que você mudou comigo porque estava namorando, mas você já namorou mil vezes antes e isso nunca havia acontecido... ai, você me deixava tão insegura e eu continuei desabafando com você sobre tudo o que eu estava sentindo, afinal você me perguntava e se preocupava, mas na hora de resolver não conseguia se entregar. Gostaria tanto de massagear a sua dor. Um dia desses você me chamou para sair, mas era tão tarde... se eu já fosse independente eu ia na hora e tenho certeza que minha presença faria um reencontro de nossas peças e até iríamos passar de fase, mas eu não fui... era loucura demais, e em partes eu errei em não ir. Em outras partes você fez de propósito, sabia que eu não poderia, e usaria como desculpa de que estava tentando sim. Eu te conheço tão bem e você ainda assim achava que conseguia fingir suas atitudes. Talvez estivesse tentando fingir para si mesmo. Houve um dia em que você havia bebido um pouco e foi o único dia em que você foi você comigo e eu fiquei feliz, porque eu soube que ainda existia o meu velho amigo ali. Eu só sei que eu estava confusa, perdida, com raiva. Não me arrependera de tudo que falei, falei para que fosse consertado, quem estava estragando as coisas era você, aliás, você não, porque você não estava sendo você.
    Seu ego, seu orgulho, seus medos estavam me empurrando. Eu procurava aguentar porque você só fazia isso para me rejeitar antes de ser rejeitado. Eu precisava provar que eu não ia te rejeitar, precisava te provar que as coisas podiam ser diferentes. Eu consumia uma força que eu não tinha. Eu aguentava os seus erros nas minhas costas e agora de boca fechada, e você percebia. Como você pensou que se fechar ia fazer dar certo, hein?! Mesmo se eu chegava de mansinho com carinho você não amolecia, qual é a sua, hein?! Você nem percebia, você estava dolorido?! Você dizia que eu era dramática para não aceitar que doía, né?! Eu não sei, eu não sei, por favor, hein?! Me responde, me dê um sinal! Não me sufoca! Queria te entender, você não queria me machucar e ao mesmo tempo me machucava para não se machucar, ou você mudou por estar namorando?! Eu estou louca?! Não! Eu não sei, eu não sei, eu acho que não. Eu não ia aguentar, eu ia cansar, você estava se estragando, estragando tudo e eu me estragava junto, por nós.
(Continuação Aqui)

 - Luísa Monte Real 

   

Meu Pé de Cerejas


    A gente correu para o mato onde tinha uma casinha na árvore que eu queria lhe mostrar.
---Vai, pode abrir os olhos... – esperei alguns segundos suficientes para que a vista se acostumasse - gostou?!
    Ninguém podia enxergar a gente ali. Era o nosso lugar. Nosso esconderijo. Estávamos sentados e sem querer uma manga de minha blusa caiu e meu ombro ficou à mostra. Eu rapidamente vesti para que você não visse. Mas você viu, é claro...
---Ei, espere aí... - você se aproximava e com suas mãos delicadamente tirava a manga - O que é essa marca?
---Não é nada.
   Te olhei nos olhos e você olhava minha marca vermelha com um formato de ameba. Não gostava muito dela, mas era minha. Depois dali você começou a querer desvendar minhas marcas até que despertasse um desejo recíproco e eu pudesse ver as suas também. Você foi duro demais comigo, às vezes era rígido, não queria me contar de jeito nenhum, não se abria de jeito nenhum. Mas eu queria tanto... você.
    Mas ali naquela casinha a gente montava um mundo de marcas só nosso. Eu pegava algumas de suas marcas para mim e vice-versa. A gente se transformava, eu te mudava. Você queria beijar cada marca, queria cuidar de cada cicatriz. Às vezes eu chorava e você limpava. Você sempre foi o garoto que roubava corações e dessa vez você quis me dar o seu para que o meu não ficasse tão sozinho.
   Você queria que a sua casa fosse meu peito para que você pudesse construir um jardim onde meu sorriso fosse a porta de entrada para o seu. Você queria cuidar do telhado da nossa casinha para que de noite não chovesse na gente e eu pudesse dormir bem o bastante para te abraçar e te acolher.
   Você queria fechar as janelas para que meu cheiro ficasse na coberta ainda de manhã quando acordasse e tivesse me perdido pela cama.
   Você queria que eu te mantivesse acordado até a madrugada para ter a certeza de te desejar até o dia seguinte.
    Porque a casinha era tão nossa, e a gente era tão bom, você não podia deixar desmoronar. Não podia. Eu merecia. Você merecia. A gente. E para fazer tudo isso então, você só tinha uma saída.
     A mudança.
     E então, você passou uma semana do lado de fora plantando alguma coisa que eu não fazia ideia do que era. Às vezes eu achava que você estava se arrumando para ir embora, parecia cansado, você não subia mais.
    Você mexia na terra, regava e esperava. Em alguns dias eu via que nascia uma plantinha dali e foi quando eu mais tive medo de você me largar com ela ali. Mas você fez o contrário, você subiu. Foi quando sentiu essa necessidade tão grande de fazer diferente, foi quando mudou que descobriu o que era amor.
   Você mudou seu olhar sobre tudo para que meus olhos encontrassem os seus. Você mudou sua fala, sua voz para que eu pudesse deitar meus ouvidos e só querer te ouvir. Você se tornou carinhoso para que eu pudesse correr para os seus braços. Você comprou lápis e papel para que eu te escrevesse e você me desenhasse. Você trouxe coberta, e primeiros socorros. É que na verdade, boa parte do que estava construído, eu é quem tinha realizado e te dado, meu corpo, minha alma, minhas marcas e a casinha já estavam prontas para te receber, e você sabia que o toque final era seu, era entrar e beijar todos os dias, as seis marcas (pelo que você contou) e uma cicatriz que eu tinha no corpo. Era renovar a certeza de que nossa casinha era cada dia mais nossa. Era me dar um beijo de bom dia para eu saber que já tinha feito o café com o seu gostinho na boca. Era ficar doente e vir correndo assoar o nariz nojento na minha blusa, implorando para ser mimado. Eca. E eu?! Eu descobri o que era amor quando tive a certeza de que podia amar marcas tão diferentes das minhas, e de que podia construir uma casinha gostosa um pouco torta, mas que fizesse você se sentir confiante, leve e cuidado o suficiente para poder vir e ajeitar com toda sua engenharia de amar. Era descer todos os dias para ver o que a plantinha tinha a nos oferecer e a gente a ela. 
----Qual planta é essa?
----É surpresa. Mas calma, é sua.
A plantinha foi crescendo e se tornando árvore, cresciam flores rosas lindas, eu sabia qual era, mas não lembrava, que droga! Era tão linda, e ele tinha feito para mim. Eu não acredito que ele havia plantado uma árvore e de certa forma aquilo crescia dentro de mim dia após dia, me fazia brilhar por dentro. Até um dia em que descemos e eu vi uma coisinha pendurada na árvore redonda, avermelhada para o roxo.
Era uma cerejeira.
---Você é doce sem ser enjoativa, linda, pequena, gostosa, sensual e companheira. Pacote completo. – ele disse, apesar de eu nunca ter sido tão segura quanto a isso.

   E agora, toda vez que ele tem que ir por alguma razão, as cerejas brotam para que eu não fique só, e me lembre de comê-las ao lado de minhas escritas manchando e dando o toque final com a cor que ele me floresceu. - Luísa Monte Real 

A Arte de Ser Você


E eu peguei uma cesta com barro
Comecei a montar o que viesse na cabeça.
E o que é que tem nela?
Cabelo
Terra
Semente
E cor
Cabelo pra enfeitar
Pó pra lembrar
Terra pra plantar
Semente pra florescer
E cor para pintar.
Numa brincadeira de mão a mão
Tinha um ritmo que de pião
Uma grande confusão
Se fazia para frente para trás,
roda a roda,
Chora, chora
gira e gira e girassol.
Redemoinho no cabelo
Os olhos castanhos
E os lábios vermelhos
Um beijo no nariz
É o que condiz
Com a paixão de um aprendiz.
As orelhas bem abertas
Ouve-se no barro o som das cores amarelas
Mas gostava mesmo na aquarela 
O rosa pink
Piquenique com as estrelas e o luar
Aonde amar é
Cair na onda do mar
Na música tocar
O barro criar
Na arte borrar
O texto postar
No teu colo deitar
Em um Sol nascer
A luta de vencer
O esforço de ser e crescer
Em você.

-Luísa Monte Real

A Arte De Ser Mulher



Hoje uma dor cresce em meu peito
Dor que sempre existiu
Passarinho engoliu
E agora quer voar.
Cores
Sabores
Dores
Escolhi a arte para me vingar
Hoje não quero paz
Hoje eu quero falar
Hoje eu quero andar
Na rua despida
Alma
Mente
E corpo
Quero andar em meio a chuva
Cai aqui no meu colo
LOUCA TPM
Sangro impura
enquanto ando, formando um cheiro
E que meu cheiro me fortaleça
Em suas narinas cresça
E você sinta o meu suor.
Com a arte, ando em câmera lenta como em um clipe
Numa ilusão de me despertar e me libertar
Com a arte me ensino a ser,
a transparecer,
a doer,
a mexer,
a envolver.
Em um grito sento no asfalto
Carrego meu filho no colo
Onde fui me perder?
Se ao menos eu soubesse diferenciar o que quero ser
do que querem que eu seja
Se ao menos eu soubesse o que é ser mulher
O que é ser um ser desvinculado de você
Homem
Me usa
Me bate
Me taxa
Me mede
Me rotula
Me usa
Me abusa
Me esconde
Me sussurra, me leva prum canto, pergunta se eu aguento.
E se não aguentar?
Me embebeda, me convence, me fala de direitos iguais
Me deixa no chão, não olha no meu olho
Me usa
Me bate
Me molda
Diz que sou sua mulher e mulher sua é de tal jeito, tal medida
É santa, é puta
É pura
Luz branca que me come
me apaga
me faz limpa
me faz santa
Branca
Do véu ao vestido
Romântica
Virgem
Rosinha
Endireitou o cara de balada
Pelas costas, baleada
Traição
Na cama, mulher casada finge orgasmo
Sexo?! Nunca segurou homem nenhum
Amor também não
Você já foi amada?
Precisa ter amor próprio, hein
Para que tanto amor próprio se no final, odeiam e rasgam minha pele?
Aprenda a me amar você
Aprenda a me ver
Aprenda que eu quero ser...
muito mais
Aprenda que eu posso e eu vou
Aprenda a me aplaudir
Aprenda a subir comigo
Desejada
Desejo
Culpa
Minha arte é ser mulher
Mas que mulher se nunca fui o que quis?
Que mulher se quando me olham não posso ser?
Qual a minha arte que me revela?
Não tem saída.
Qual a arte de não ser mulher vencida?
Qual a arte de ser mulher presa na dor de ser mulher?
Qual a arte que me liberta para ser mulher que respira?
Qual a arte que me dá voz para dizer o que é ser mulher?
Eu não sei,
Eu não sei o que é ser mulher.
Nem mesmo quero deixar de ser
Eu só quero ser a arte que nos faz mulher amada.

-Luísa Monte Real

Me Inundei de Você e Odiei


    Eu te odeio. Eu te odeio porque me sinto menor sem você. Eu te odeio porque não quero que faça sentido não ter você. Eu te odeio porque me sinto impotente. Eu te odeio porque permiti me inundar com seu vazio. Eu te odeio porque mesmo encontrando o nada, eu construi alguma coisa. Eu te odeio porque te carreguei. Eu te odeio porque acredito que a gente escolhe como lidar com a situação e tem dias que eu só sei doer. Eu te odeio porque eu estou cansada. Eu te odeio porque a cada dois passos que eu dou para frente, eu volto um atrás. Eu te odeio porque sinto sua falta. Sinto falta de todos os milhares de filmes e séries que a gente via juntos, e por que raios isso era tão especial pra mim? Sinto falta de compartilhar minha vida com você. Falar toda hora sobre nada e tudo. Te encher o saco e me sentir amada, acolhida. Eu te odeio porque sinto falta de todas essas coisas, mas não acho que você mereça. Não mais. Não hoje. Não depois da forma que me atacou com uma flecha bem na ferida me fazendo cair de uma forma que nem lembrava se caia de baixo ou de cima. Não depois de enxergar que você não tem mais nada a me acrescentar além de dor de cabeça. E eu entro em surto. Porque sinto sua falta, mas se penso em você aqui, comigo agora, só consigo imaginar uma coisa: discussão, decepção, cansaço da sua imaturidade, do seu vazio, da sua alma perdida. É porque na real, eu sinto falta da pessoa que você era antes de me perder. Mas aquela pessoa não volta mais e eu preciso que alguém me diga isso. Aquela pessoa não existe mais. Aquela pessoa está por aí se perdendo e sendo escondida como você sempre fez consigo mesmo. É porque eu não consigo te perdoar em como tudo estava sendo tão leve, no esforço que fiz para que fosse saudável, e você teve que virar esse monstro e me engolir numa dor de ego desesperado.
       E eu odeio que eu tive nojo de você, eu odeio que eu tive desprezo por você. Eu odeio o quanto você foi fraco. Eu odeio o tanto de esforço que você fazia para provar a mim o príncipe que você se tornara, como se eu tivesse que te aplaudir ou dar nota 10 depois de um ensinamento que te dei. Eu odeio que você falou que vai lutar por ela como eu lutei por você, querendo mostrar que vai acertar dessa vez, só que do seu jeito, esse jeito razo bem mais ou menos, porque "queremos coisas diferentes" e você não tem tempo. Eu odeio que você tava tão preocupado com a minha aprovação que nem ao menos percebia que vomitava dentro da minha boca um mar de podridão que descia arranhando e intoxicando tudo. Eu odeio ser seu porto seguro quando nem mais pier eu tenho. Eu odeio seu orgulho que você sabe, não se sustenta comigo e você desaba.
     Meu amor, e você veio cheio de si, e você veio cheio de orgulho pronto para ganhar o troféu. E eu te dei uma rasteira para voltar para realidade e você ainda teve a coragem de desabar em mim?! Eu odeio que você não se calou e não foi embora. Odeio que você se despedaçou, se despiu sem que eu quisesse ver. Eu odeio que você provocou, não aguentou o troco e ainda achou que tinha o direito de derramar seu sangue sobre o meu. E agora eu odeio que no meu sangue escorre o teu e eu não sei mais identificar a dor que é minha ou sua. Eu odeio que a sua dor agora queima toda vez que meu coração bombeia. E eu odeio que as coisas mais bonitas que senti foram por você. Odeio achar que ainda é o mais bonito e com sentido em mim, enquanto parte de mim diz que para você nem é mais e talvez nunca nem foi. E eu racionalmente, me acho tão mais merecedora, mais especial do que você só para fingir que, na verdade, não sinto o oposto, e que não te coloco num encantamento. Não deveria, mas me sinto traída por mim mesma. Mas odeio mais ainda que parte de mim te entende e te respeita. Parte de mim é humilde, te permite e quer ver você crescer, parte de mim te ama como irmã desde sempre e reconhece que te ama, mas que você não é merecedor de meus desejos e de minhas fantasias mais profundas, apesar de ainda sentir e me culpar friamente por isso. E eu odeio como me sinto o pó sem ter alguém que nem se quer faz questão de ter alguma relevância na própria vida. Mas tudo o que eu odeio é porque amo. O que odeio é amar essa coisa masoquista de te gostar. - Luísa Monte Real

Desenlouqueça e Vá

     Você perguntou se você era a pessoa certa e eu respondi que eu era se eu fosse a sua. Você disse que queria me fazer a mulher mais feliz do mundo. Que essa sua vontade era maior do que qualquer coisa e que o medo. Você me chamou para morar com você. Você disse que eu era sua vida. Você disse que me amava, mas amava de verdade. Você disse que não conseguia se afastar de mim por nada nesse mundo. Você disse que comigo era diferente, que eu era perfeita. Você me chamou para viagens. Você me pedia em casamento todos os dias. Você disse que eu era o motivo de não mais acordar mal humorado de manhã. Você disse que eu te fazia feliz. Você disse que sorria ao ouvir minha voz. Você disse que não conseguia mais dormir sem mim. Você disse que não acordava quando eu tinha ataques de tosse no meio da noite. Você pedia para eu te acordar se eu chorasse. Você disse que eu era o tipo de garota pacote completo. Você disse que não me largaria. Você disse que eu ficava linda com o cabelo de qualquer jeito. Você disse que queria pegar minha coberta emprestada para dormir com o meu cheiro. Você disse que eu era bonitinha (fofa no seu dicionário) e muito engraçada. Você disse que me queria. Você disse que eu era a certa. Você disse que eu era a miss universo gostosa. Você disse zilhões de vezes que eu era linda. Você disse que nunca havia sentido igual. Você disse que eu era diferente...
  Você disse e eu sinceramente queria que houvesse alguma maneira de você permanecer aqui. Mas nós dois já entendemos que não dá. Eu pelo menos, já percebi. Então vai, vá de uma vez sem olhar para trás, tá bom? Vá sem medo de bater suas asas e encontrar um novo lar. Vá sem medo de ser feliz de novo. Vá e deixa ser presente em um novo alguém tudo o que me disse e que eu te disse. Vá e me transforma numa fotografia com a moldura que preferir em algum canto de entulho da sua casa. Vá porque você preso a mim prende minhas asas em uma corrente que talvez só eu veja. Sei que quando a corrente solta um pouco eu me sinto liberta, mas ela deixa aquela dorzinha que dá vontade de voltar e não se mexer por ter prendido por muito tempo. Vá, porque se você fica, você não fica por inteiro e eu sou capaz de me engolir para matar minha sede de você. Vá, porque meu sentimento por quem sou com você é grande e me possuo numa vontade de ter um futuro novamente com você. Quem é você afinal, hein?! Quer ir para não ser, mas quer ficar para sentir. Deixa eu te sentir. Te sentir é tão bom. Só mais uma vez. Ou vá logo, pegue o voo mais cedo, corra para a sala de embarque, não perca mais essa chance! Por favor, não me enche de vontade de você porque já não mais posso suportar te superar tantas vezes. Já não posso mais suportar ter que me convencer de que você poderia me dar tão mais... por que não se entrega? Por que desenlouqueceu?! Hein?! Agora talvez seja tarde. Agora se for para você se enlouquecer de volta, vai ter que virar a cabeça, vai ter que me tirar o ar e me dar a certeza de que não tem medo não, que não desenlouquece nunca mais, porque na verdade nunca deixou de ser louco, só covarde. Me suga por inteiro ou vá rapidinho, porque meu amor é anseio e não posso esperar por controle. Me descontrola ou vá embora. Me mata de uma vez ou me deixa viver. Que seu fogo queima e eu entrego o meu a você, mas se seu fogo apaga eu me faço reacender. Só não me apaga com falsos redemoinhos de sua perdição mental. Se encontra e me ganha. Ou se perde de uma vez e eu sumo. Se enlouquece de volta ou deixa-me desenlouquecer. Porque a verdade é que no fundo eu sempre sei que você ainda tem uma chance de me virar as pernas, me colocar de branco e viver uma fantasia nem tão perfeita, mas que a gente sente em imensidão. No fundo, eu sempre estou pronta para voltar a ver o nascer, o pôr do Sol e a Lua contigo. - Luísa Monte Real

Desmelancoliza-me



     As pessoas me olham por três lados: madura e teimosa, louca e divertida, ou frágil e fofa. Hoje eu tenho a certeza de que sou madura e teimosa, louca e divertida, e fofa, mas frágil? Você vai ter que me desculpar e descartar essa opção. Posso ser sentimental, ainda bem afinal sou humana e carrego em mim a arte de querer me expressar como tal. Mas  hoje não tem ninguém que me faça duvidar da minha coragem e do meu amor próprio, não importa o tamanho do erro que eu cometa, só eu sei o que sinto por mim nesse momento, aliás diferente do que muitos pensam, amor próprio para mim nem é necessariamente  se amar o tempo inteiro, nem ser perfeito e se tornar o centro da própria vida. É se machucar mas tomar conta da ferida, ou ainda se ferir mais e mais, testar seus limites, mas se autoconhecer e aceitar que aquilo é você, e que você não precisa se amar por inteiro, mas se ver como merecedor de cuidado próprio. Como todo amor, o amor próprio é construção e sentimento, é algo que não tem regra, você só sente e sabe, ás vezes não sabe, e tem a vida inteira para evoluir, afinal quem para de evoluir é corpo morto e alma vazia. 
     Só eu sei o que é superar minha depressão sozinha sem nem mesmo entender, explicar e nem mesmo preciso desse diagnóstico, na verdade eu só uso essa palavra para você entender mais ou menos do que se trata, porque vamos combinar que está bem banalizado. Recolher cada pedacinho meu com muita força, força que nunca tive, mas que me fiz ter, me reconstruir por inteira e me tornar ainda melhor do que um dia poderia esperar de mim mesma. Quando nada mais fazia sentido, quando não tinha mais luz, quando tudo era cinza e sem energia, tudo em câmera lenta e os dias iguais e intermináveis, a gravidade me puxava e era uma gravidade de tanta tristeza, que quase não era nada. O nada era o que me preenchia. Uma obsessão imensa de se questionar e se prender em sentidos que tinham caído por terra.  Mesmo assim, dia após dia, com muita força você se erguer e lutar por você. Você levantar da cama,  você não chorar, você procurar sentido, você procurar algum sentimento bom, algum sorriso ainda perdido em minha alma.
     Hoje, me agradeço e me orgulho de não ter desistido de mim e ter feito tanto por mim. Hoje entendo que minha teimosia já me trouxe muitas brigas, mas é ela que me sustenta sendo eu. É ela que me dá coragem de não aceitar engolir aquilo que querem que eu engula. É ela que me faz fixar meus sentidos de vida, senão tudo desmorona. É ela que me faz lutar cada dia pela minha subjetividade e meus valores. É ela que me faz ter força para encarar de peito aberto aquilo que eu preciso aprender. É ela que encara a minha dor comigo criando um futuro melhor e acreditando nos meus sonhos. Espero continuar fazendo mais e mais buscando quem eu quero ser quando acordo. Me refazendo, me destruindo um pouco ali e recomeçando um pouco aqui. Hoje, não há dor que não doa sem me doar algo bom em troca. Hoje, não há nada de mal que não me venha com uma lição. Hoje, não há sofrimento que seja inimigo. Hoje, não há melancolia que eu não desmelancolize. Hoje, me olho no espelho e sei o quão forte e corajosa eu sou. Quanta força de vontade por mim tenho e como meu caminho comigo mesma me motiva a continuar na descoberta de oceanos e universos dentro e fora de mim. Hoje, sei que no meu jardim as flores não só não mais viram pó, como tem espaço para todos os cheiros e cores. - Luísa Monte Real 

De Mal a Pior

    

       E hoje é um daqueles dias que me sinto rejeitada. Aqueles dias que eu tenho uma vontade enorme de te mandar mensagem te xingando e dizendo que odeio você. Te perguntar o que que foi que te deu? Gritar que não entendi nada, que nada faz sentido. E te forçar a dizer que na verdade você não gostava de mim coisa alguma. Te gritar que você fez a maior burrice da sua vida, que você é um lixo, que você jogou fora o que você tinha de mais importante e que você nunca vai achar alguém como eu, e que ninguém nunca vai fazer e nem ser metade das coisas que fiz e fui pra você, e, principalmente, por você. Que você é um idiota, ingrato que não tem maturidade o suficiente para agarrar as oportunidades boas que a vida dá. Um daqueles dias que tenho vontade de cuspir em você, e não me importa o quão antiético isso seja, sei que nunca faria isso e somos livres para sentir raiva e não sou uma pessoa ruim por sentir. Ou sou?! Parece que só tento me convencer de que não sou ruim, quando no fundo estou afirmando que sou. 
     Você é um covarde. Quero perguntar se você não se arrepende nem por um segundo das suas escolhas. Sempre disse que se fosse para gente acabar, que acabasse por falta de sentimento, parece que acabou pelo excesso. Como pode uma pessoa tão burra?! Tão cega?! Ah, então o erro sou eu?! Fala que ficar comigo foi ruim, fala que eu te fazia mal, fala se eu era chata, se eu não era calma e compreensiva, fala que eu não te fazia feliz, fala que você tava comigo por pena, fala que eu não era a primeira e a última pessoa que você pensava no dia, fala que a sua melhor risada não era comigo, fala que não era eu que te acalmava nos momentos ruins, fala que você não ficava todo bobo comigo, fala que você não sentia nada, fala que você tem nojo de mim, fala que eu sou feia, burra, maluca e não te somo em nada, fala que você me usou, fala que eu nunca fui nada para você, fala que eu só fui mais uma. Fala, por favor fala, eu te imploro gritando e chorando a tapas no seu peito. Fala de verdade porque só assim eu consigo entender os seus motivos de desistir e me conformar que não foi só um ato de covardia. Por favor, fala porque mesmo você não me falando, é assim que eu me sinto, é assim que eu me vejo. Fala porque aceitar que você foi embora por tudo ter sido uma grande mentira é melhor do que você ter ido embora por medo. Fala porque dói menos quando o xingamento é externo e posso te culpar por gerar e engolir meu próprio veneno.
     Sinto-me tão pequena, sinto que não fui boa o suficiente. E caralho - desculpa o palavreado - eu fui mais do que boa, eu fui bem mais do que eu era capaz de ser, porque eu deixei de ser qualquer coisa por você. Eu fui até muito mais do que você se fazia merecer e você sempre soube e disse isso, mas você nunca tentou me merecer, não importa o quanto eu lutei para isso, você não dava o braço a torcer. E agora vem me dizer que mudou e que está sim um homem melhor?! Eu me comprometi por nós dois, enquanto você só queria o melhor de dois mundos. Eu doei minha alma, meu psicológico e meu físico para te dar a coragem e a maturidade que você não tem e talvez nunca venha a ter. Eu fui a única que acreditou em você quando nem mesmo você acreditava. E você jogou tudo fora, você não valorizou, você me rejeitou, me negou, e eu sei que isso tudo foi reflexo de nada mais do que você fez contigo mesmo. Não importa se você diz que não é nada disso, não importa, porque é assim que eu me sinto, e é assim que você me fez sentir.  É uma dor que eu choro berrando com vontade de rasgar minha blusa num ato de me libertar de mim mesma, como se aquilo fosse me tirar de meu próprio corpo para eu não ter que passar por isso. Desespero. Não quero estar nesse corpo, não quero estar nessa vida. Tenho vergonha de mim e de minha pele. Por que eu sou tão fraca? Por que sempre que me sinto assim quando a causa são homens? Por que eles me destroem? Por que eu deixo eles me destruírem? Por que eu me rejeito tanto quando eles me machucam e eles que erram? Por que eu me sinto tão pequenininha? Por que me sinto tão difícil de ser amada? Por que me culpo tanto? Por que odeio minha pele em uma tentativa de não negar meu amor por você? Vida, me perdoa por tamanha ingratidão, mas tem dias que não posso aguentar essa dor que me corrói e faz de mim menor. Ela é o que eu tenho de mais sombrio e, de algum modo, real dentro de mim. Falha, falta, fracasso. Se existe algum meio de me sentir salva é a indiferença por você, e o amor por mim. E é assim que não me sinto em alguns dias. - Luísa Monte Real

Desaba(fa)ndo

    

     Eu acordei em uma grande respirada, puxando o ar desesperadamente do pulmão, a boca fazendo um barulho de sufocamento, abrindo meus olhos arregalando-os pedindo para enxergar o mundo a minha volta. Até que eu vi só um feixe de luz bem longe mas tinha certeza de que não era o fundo do túnel, definitivamente não era um túnel. Tudo a minha volta era infinito e escuro, objetos difíceis de reconhecer, embaçado. Logo após senti que não sugava o ar, era água, água que me descia doendo e arranhando minhas narinas e minha garganta. Comecei a me debater em um grito desesperado de socorro. Não tive sucesso. Estava fraca. Resolvi fechar os olhos numa tentativa de acordar daquele pesadelo. Depois de uns minutos que pareceram anos de angústia, comecei a perceber que afinal conseguia respirar naquele lugar, em uma respirada funda senti meu pulmão se encher de alívio e comecei a respirar desesperadamente saindo um som de desespero de meus pulmões querendo captar todo o ar do mundo. Ainda sem abrir os olhos, tentava controlar aos poucos minha respiração, e ainda ofegante já começava a ter mais consciência e conseguia voltar a pensar. Pensar. Agora tinha me dado conta de que tinha parado de pensar, talvez Descartes estava certo quando disse "Penso, logo existo", porque naquele momento sem pensamentos, tinha a certeza de minha morte. 
   Comecei a imaginar coisas gostosas e bonitas. Minhas coisas preferidas. Respirar doía de tanta água engolida, queria vomitar. Precisava colocar tudo para fora. Pensar coisas boas não parecia ser o suficiente. Queria sair dali. Talvez um desmaio caia bem naquele momento. Estava tão cansada. Não conseguia sentir mais nada além de medo, pensava em alguém que amava e não sentia amor. Apatia imensa, e isso me dava tanta dor. Sentia-me desumana, sentia-me um caco, um lixo, um pó. Até que resolvi abrir os olhos novamente e ainda estava no mesmo lugar. Entendi que no meio disso tudo, havia aprendido a respirar ali. Sobreviver. Conseguia voltar a ter algum controle no meio daquele desespero, no meio do desconhecido. E aí, percebi que aquela luz que havia visto no começo não estava mais ali. Então, resolvi começar a nadar para tentar encontra-la. No caminho, comecei a encontrar algumas criaturas estranhas, que chegavam perto de meu rosto, criaturas que me deram muito medo, dor no estômago, e me fizeram chorar de pavor pedindo para que aquele pesadelo acabasse, por favor, eu não estava aguentando mais. Eu ia ser derrotada. Já não sentia minhas lágrimas, minhas pernas, não sentia meu corpo, garganta presa e seca, eu só continuava sem saber onde ir, onde chegar. Era tudo tão escuro, tão embaçado, tão confuso, tão sufocante. Até que cheguei em um caminho vazio, sem criaturas nem nada, só água e eu. Nadei por ali até encontrar uma mesinha com caneta e papel. Não sabia se era de alguém, parecia não ter ninguém ali além de mim, eu também não havia mais nada a perder, me aproximei.    
    Sentei-me na cadeirinha, olhei o bloco de papel, a caneta, olhei ao redor e comecei a escrever como gostaria de sair dali como se alguém pudesse ler e me salvar, porque minha voz não saia, só bolhas. Escrevi que queria encontrar minha família, meus amigos. Escrevi como gostaria de ter alguém. Qualquer pessoa. Até mesmo um cachorro. Começava a sentir meus pulmões mais leves. A dor diminuia virando só um desconforto. Voltava a sentir meu corpo. Escrevi como gostaria que fosse o lugar, um campo ou uma praia com o Sol tocando minha pele e me tranquilizando. Um abraço quente, uma mão enchugando minhas lágrimas, um beijo na testa, um colo. Enchi tudo aquilo de poesia. Enchi de belas palavras. Frases inspiradoras. Frases que me enxergavam e me olhavam com carinho. Encaravam seus olhos nos meus, mostrando-me como um espelho quem eu era ou queria ser, o que sentia, o que desejava. Mais tarde, escrevia como os meus textos poderiam ser lidos e queridos. Escrevia tendo em mente que me ajudava, mas queria mais, queria fazer bem para alguém. Eu queria  salvar alguém para acreditar que eu poderia me salvar e sair dali. Eu precisava do outro, eu precisava do toque, eu precisava de alguém para ser alguém, eu precisava ser o  alguém de outro alguém. Então eu escrevia como se fosse para alguém, mas no fundo sabia que era para mim mesma. Ei, vem aqui, é só me seguir, você não está só, você pode sair, abre a porta, toque a campainha, como preferir. Só vem, eu juro, não vai doer. É só se abrir. Deixa eu entrar, deixa eu te achar, deixa eu te tocar, deixa... Só deixa voar. 
     Até que eu comecei a enxergar uma luz em minha mão direita. Conforme o tempo - que eu não tinha ideia de quanto -, eu escrevia e ela se estendia para o meu corpo todo. Era a luz do começo. Era eu. Tudo ali era eu. Descobri que até mesmo as criaturas eram coisas da minha cabeça. Eram parte de mim. Eu me afogava em mim, em minha escuridão mais sombria e dolorosa. Eu me intoxicava quando mergulhei em mim, eu não aceitava e ansiava a saída. Qual é a saída de si mesmo? E aí eu entendi que só existe luz porque existe escuridão. E se eu era a minha própria escuridão, onde que estava minha luz? No mesmo lugar, em mim. Eu sou minha própria luz. E que tudo ao redor era meu e parte de quem eu sou. Eu era minha morte e minha vida. Eu era a minha dor e minha paz. E no meio do desespero eu aprendi a brincar de ser feliz com poesia e brincadeira de atuar criaturas apavorantes para mostrar a mim meus medos e batalhar contra eles. Eu me salvava de mim mesma tentando escrever umas coisinhas bonitas, fazer umas palhaçadas dizendo que quero deixar alguém bem, mas só estou desaba(fa)ndo. - Luísa Monte Real 

Textos mais queridos 🍒