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Desmelancoliza-me



     As pessoas me olham por três lados: madura e teimosa, louca e divertida, ou frágil e fofa. Hoje eu tenho a certeza de que sou madura e teimosa, louca e divertida, e fofa, mas frágil? Você vai ter que me desculpar e descartar essa opção. Posso ser sentimental, ainda bem afinal sou humana e carrego em mim a arte de querer me expressar como tal. Mas  hoje não tem ninguém que me faça duvidar da minha coragem e do meu amor próprio, não importa o tamanho do erro que eu cometa, só eu sei o que sinto por mim nesse momento, aliás diferente do que muitos pensam, amor próprio para mim nem é necessariamente  se amar o tempo inteiro, nem ser perfeito e se tornar o centro da própria vida. É se machucar mas tomar conta da ferida, ou ainda se ferir mais e mais, testar seus limites, mas se autoconhecer e aceitar que aquilo é você, e que você não precisa se amar por inteiro, mas se ver como merecedor de cuidado próprio. Como todo amor, o amor próprio é construção e sentimento, é algo que não tem regra, você só sente e sabe, ás vezes não sabe, e tem a vida inteira para evoluir, afinal quem para de evoluir é corpo morto e alma vazia. 
     Só eu sei o que é superar minha depressão sozinha sem nem mesmo entender, explicar e nem mesmo preciso desse diagnóstico, na verdade eu só uso essa palavra para você entender mais ou menos do que se trata, porque vamos combinar que está bem banalizado. Recolher cada pedacinho meu com muita força, força que nunca tive, mas que me fiz ter, me reconstruir por inteira e me tornar ainda melhor do que um dia poderia esperar de mim mesma. Quando nada mais fazia sentido, quando não tinha mais luz, quando tudo era cinza e sem energia, tudo em câmera lenta e os dias iguais e intermináveis, a gravidade me puxava e era uma gravidade de tanta tristeza, que quase não era nada. O nada era o que me preenchia. Uma obsessão imensa de se questionar e se prender em sentidos que tinham caído por terra.  Mesmo assim, dia após dia, com muita força você se erguer e lutar por você. Você levantar da cama,  você não chorar, você procurar sentido, você procurar algum sentimento bom, algum sorriso ainda perdido em minha alma.
     Hoje, me agradeço e me orgulho de não ter desistido de mim e ter feito tanto por mim. Hoje entendo que minha teimosia já me trouxe muitas brigas, mas é ela que me sustenta sendo eu. É ela que me dá coragem de não aceitar engolir aquilo que querem que eu engula. É ela que me faz fixar meus sentidos de vida, senão tudo desmorona. É ela que me faz lutar cada dia pela minha subjetividade e meus valores. É ela que me faz ter força para encarar de peito aberto aquilo que eu preciso aprender. É ela que encara a minha dor comigo criando um futuro melhor e acreditando nos meus sonhos. Espero continuar fazendo mais e mais buscando quem eu quero ser quando acordo. Me refazendo, me destruindo um pouco ali e recomeçando um pouco aqui. Hoje, não há dor que não doa sem me doar algo bom em troca. Hoje, não há nada de mal que não me venha com uma lição. Hoje, não há sofrimento que seja inimigo. Hoje, não há melancolia que eu não desmelancolize. Hoje, me olho no espelho e sei o quão forte e corajosa eu sou. Quanta força de vontade por mim tenho e como meu caminho comigo mesma me motiva a continuar na descoberta de oceanos e universos dentro e fora de mim. Hoje, sei que no meu jardim as flores não só não mais viram pó, como tem espaço para todos os cheiros e cores. - Luísa Monte Real 

Desaba(fa)ndo

    

     Eu acordei em uma grande respirada, puxando o ar desesperadamente do pulmão, a boca fazendo um barulho de sufocamento, abrindo meus olhos arregalando-os pedindo para enxergar o mundo a minha volta. Até que eu vi só um feixe de luz bem longe mas tinha certeza de que não era o fundo do túnel, definitivamente não era um túnel. Tudo a minha volta era infinito e escuro, objetos difíceis de reconhecer, embaçado. Logo após senti que não sugava o ar, era água, água que me descia doendo e arranhando minhas narinas e minha garganta. Comecei a me debater em um grito desesperado de socorro. Não tive sucesso. Estava fraca. Resolvi fechar os olhos numa tentativa de acordar daquele pesadelo. Depois de uns minutos que pareceram anos de angústia, comecei a perceber que afinal conseguia respirar naquele lugar, em uma respirada funda senti meu pulmão se encher de alívio e comecei a respirar desesperadamente saindo um som de desespero de meus pulmões querendo captar todo o ar do mundo. Ainda sem abrir os olhos, tentava controlar aos poucos minha respiração, e ainda ofegante já começava a ter mais consciência e conseguia voltar a pensar. Pensar. Agora tinha me dado conta de que tinha parado de pensar, talvez Descartes estava certo quando disse "Penso, logo existo", porque naquele momento sem pensamentos, tinha a certeza de minha morte. 
   Comecei a imaginar coisas gostosas e bonitas. Minhas coisas preferidas. Respirar doía de tanta água engolida, queria vomitar. Precisava colocar tudo para fora. Pensar coisas boas não parecia ser o suficiente. Queria sair dali. Talvez um desmaio caia bem naquele momento. Estava tão cansada. Não conseguia sentir mais nada além de medo, pensava em alguém que amava e não sentia amor. Apatia imensa, e isso me dava tanta dor. Sentia-me desumana, sentia-me um caco, um lixo, um pó. Até que resolvi abrir os olhos novamente e ainda estava no mesmo lugar. Entendi que no meio disso tudo, havia aprendido a respirar ali. Sobreviver. Conseguia voltar a ter algum controle no meio daquele desespero, no meio do desconhecido. E aí, percebi que aquela luz que havia visto no começo não estava mais ali. Então, resolvi começar a nadar para tentar encontra-la. No caminho, comecei a encontrar algumas criaturas estranhas, que chegavam perto de meu rosto, criaturas que me deram muito medo, dor no estômago, e me fizeram chorar de pavor pedindo para que aquele pesadelo acabasse, por favor, eu não estava aguentando mais. Eu ia ser derrotada. Já não sentia minhas lágrimas, minhas pernas, não sentia meu corpo, garganta presa e seca, eu só continuava sem saber onde ir, onde chegar. Era tudo tão escuro, tão embaçado, tão confuso, tão sufocante. Até que cheguei em um caminho vazio, sem criaturas nem nada, só água e eu. Nadei por ali até encontrar uma mesinha com caneta e papel. Não sabia se era de alguém, parecia não ter ninguém ali além de mim, eu também não havia mais nada a perder, me aproximei.    
    Sentei-me na cadeirinha, olhei o bloco de papel, a caneta, olhei ao redor e comecei a escrever como gostaria de sair dali como se alguém pudesse ler e me salvar, porque minha voz não saia, só bolhas. Escrevi que queria encontrar minha família, meus amigos. Escrevi como gostaria de ter alguém. Qualquer pessoa. Até mesmo um cachorro. Começava a sentir meus pulmões mais leves. A dor diminuia virando só um desconforto. Voltava a sentir meu corpo. Escrevi como gostaria que fosse o lugar, um campo ou uma praia com o Sol tocando minha pele e me tranquilizando. Um abraço quente, uma mão enchugando minhas lágrimas, um beijo na testa, um colo. Enchi tudo aquilo de poesia. Enchi de belas palavras. Frases inspiradoras. Frases que me enxergavam e me olhavam com carinho. Encaravam seus olhos nos meus, mostrando-me como um espelho quem eu era ou queria ser, o que sentia, o que desejava. Mais tarde, escrevia como os meus textos poderiam ser lidos e queridos. Escrevia tendo em mente que me ajudava, mas queria mais, queria fazer bem para alguém. Eu queria  salvar alguém para acreditar que eu poderia me salvar e sair dali. Eu precisava do outro, eu precisava do toque, eu precisava de alguém para ser alguém, eu precisava ser o  alguém de outro alguém. Então eu escrevia como se fosse para alguém, mas no fundo sabia que era para mim mesma. Ei, vem aqui, é só me seguir, você não está só, você pode sair, abre a porta, toque a campainha, como preferir. Só vem, eu juro, não vai doer. É só se abrir. Deixa eu entrar, deixa eu te achar, deixa eu te tocar, deixa... Só deixa voar. 
     Até que eu comecei a enxergar uma luz em minha mão direita. Conforme o tempo - que eu não tinha ideia de quanto -, eu escrevia e ela se estendia para o meu corpo todo. Era a luz do começo. Era eu. Tudo ali era eu. Descobri que até mesmo as criaturas eram coisas da minha cabeça. Eram parte de mim. Eu me afogava em mim, em minha escuridão mais sombria e dolorosa. Eu me intoxicava quando mergulhei em mim, eu não aceitava e ansiava a saída. Qual é a saída de si mesmo? E aí eu entendi que só existe luz porque existe escuridão. E se eu era a minha própria escuridão, onde que estava minha luz? No mesmo lugar, em mim. Eu sou minha própria luz. E que tudo ao redor era meu e parte de quem eu sou. Eu era minha morte e minha vida. Eu era a minha dor e minha paz. E no meio do desespero eu aprendi a brincar de ser feliz com poesia e brincadeira de atuar criaturas apavorantes para mostrar a mim meus medos e batalhar contra eles. Eu me salvava de mim mesma tentando escrever umas coisinhas bonitas, fazer umas palhaçadas dizendo que quero deixar alguém bem, mas só estou desaba(fa)ndo. - Luísa Monte Real 

De Bem a Melhor

                                       

    E hoje é um daqueles dias em que eu acordo com o coração sereno. Aqueles dias que sinto que estou no caminho certo, mesmo sabendo que ainda tenho muitas batalhas para superar. É um daqueles dias que não sinto pendência nenhuma com você. Que me sinto com o dever cumprido e meu coração esbanja gratidão por ter vivido tudo que vivi com você. Que sinto que ambos fizemos nossos papéis na vida um do outro e precisamos nos libertar, para reconhecermos a nós mesmos de volta, para que possamos nos desprender dessa dependência de não saber o que é viver um sem o outro, para se querer de novo. Para que a gente possa preencher o que foi desgastado, para que a gente pare um pouco de se doar e possa se dedicar ao nosso amor próprio. Um daqueles dias que sinto uma saudade gostosa e fico recordando com muito prazer nossos momentos. Um daqueles dias que me sinto completa de amor e repleta de luz. Que dou aquele suspiro com gosto de valeu a pena. Um daqueles dias que sinto que ambos temos um caminho incrível pela frente e que estamos melhores um sem o outro agora, e que isso não derruba  tudo o que construímos. Um daqueles dias que tenho a certeza de que você também sabe disso nem que só bem internamente. Um daqueles dias que só tenho a te agradecer. Um daqueles dias que parece que todas as borboletas estão voando para fora de mim e as cicatrizes sendo cuidadas. Um daqueles dias que o Sol brilha em minha pele e eu sorrio de volta com o aconchego do abraço quente que a luz me dá. Um daqueles dias que eu paro para pensar e reparar em coisas simples como olhar uma formiguinha levando uma folha verdinha tão maior que ela até seu formigueiro, e ela tem tanto equilíbrio, força e noção do caminho e de onde ela tem que chegar, que me surpreende os seres humanos serem tão distraídos e perdidos. Talvez nós devêssemos olhar mais para as formiguinhas. 
    Um daqueles dias em que respirar não parece apertar meu peito. Um daqueles dias que eu me olho no espelho e enxergo coragem, força e a pessoa que eu gostaria de ser está bem ali na minha frente. Mexo em cada cacho e percebo que perdi um pouco de cabelo com minhas maluquices de pintar colorido, mas que nunca me achei tão bonita de um jeito simples e suficiente. Um daqueles dias que quero sorrir para um(a) estranho(a) na rua e olhar nos olhos dele(a). Já tentou? Sinceramente eu adoro, me sinto conectada, me sinto aqui, me sinto viva e me sinto pessoa sentindo outra pessoa, me sinto igual, nem melhor nem pior, igual. Um daqueles dias que abraço minhas imperfeições e digo "vocês são minhas". Um daqueles dias que relembro minhas qualidades, e por mais que meu caminho seja ser melhor e aprender a cada dia, faz parte reconhecer e valorizar nossa colheita. Um daqueles dias que precisar de alguém ou algo não faz sentido no mundo do amar e ser amada. Um daqueles dias que eu lembro a paciência e calma que aprendi a ter. Um daqueles dias que me amo por inteiro e sinto que há muito tempo não dava atenção a isso. - Luísa Monte Real

Quem estragou nossa música?


   Por que as pessoas dizem que estraga a música lembrar de alguém que não mais está aqui? Tudo bem, talvez lembrar dela doa ainda e admitir que ainda dói dá uma angustia danada. A cobrança de superar o outro, de ser feliz é tão grande. Mas e dai? Não se cobre tanto. Quem está deixando estragar a música é você, porque sinceramente, uma música boa ligada a um afeto bom não tem como ser melhor. Não destorça uma lembrança boa só porque agora dói não ter a pessoa ou por algum rancor mal resolvido que você tenha com ela. Não esconda a dor debaixo do tapete, abrace ela, ela também precisa de carinho. Você é só uma pessoa e ter sentimentos bons por alguém não tem nada de errado, mesmo que ela só esteja no passado agora, mesmo que ela tenha te decepcionado. Todo mundo erra, perdoe-a. Liberte-se desse apego que te faz estar revoltado por querer tê-la, mas pensa que não deve ou não pode, ao invés disso ame e sinta a música, não perca a magia. Eu acho tão gostoso, é como se eu pudesse sentir ela ali comigo, e tão perto, como se a pessoa dançasse dentro de mim...
  Faz assim olha, feche os olhos, deixa o som alto no seu ouvido, comece a cantar junto com a música... De repente você vai se lembrar dela e vai se sentir culpado, diga: ah que que tem? E sinta tudo aquilo que está aparecendo ali na hora, eu duvido você conseguir parar de sorrir, às vezes até umas lágrimas de emoção começam a cantar pelas suas bochechas. É um sorriso que vem lá da alma que atrapalha até mesmo sua cantoria tão afinada e ritmada. Imagino as curvas de seus ombros, o contorno dos teus lábios, da tua risada de neném e rio no meio da música. Lembro dos seus olhos castanhos escuros de bola de gude destacados por cílios pretos e demarcados com suas sobrancelhas grossas. Tão lindo,  beirando a perfeição vinda dos meus olhares sob teu corpo e alma. Desenhando seu maxilar e seu queixo quadrado em um rosto oval, onde escorrega sua barba escura com falhas loiras que dão o toque de imperfeição mais gostoso que existe. Consigo reviver um mar de emoções que sentia misturado com uma nostalgia que é tão boa. Consigo enxergar que minha raiva não tem lugar ali, quero lembrar de você do jeito que você falou que gostaria de ser lembrado. De um jeito bom, de um jeito que me some, de um jeito que você ainda pulse aqui dentro. Lembro dos dias que cantava comigo, aquela saudade grudada a uma felicidade de ter vivido tudo aquilo com você. Sorte. Sinto-me a pessoa mais sortuda e viva do mundo. Talvez a música seja o mais perto que a gente chegue de uma máquina do tempo, quem sabe? Então, como qualquer máquina, você só tem o controle dela se aprender a usa-la com sabedoria, paciência e cuidado. E eu te garanto que se você quiser, ela pode ter muitas outras funções além das que aparecem no manual. - Luísa Monte Real

Espontânea


 
Ela nunca gostou de nada que a prendesse. Desde pequena sempre nervosinha, teimosa, com fome de independência e de querer ser grande pra ter liberdade... Se é que algum dia se conquista a tal. Ela nunca gostou de obrigações, se é pra fazer que faça com vontade, se não nem venha. Quanto mais natural, espontâneo e sincero for, melhor. Ela não gosta de enrolação. Ela sempre gostou de cartas na mesa e transparência no olhar. Ela gosta da empatia pra tentar ser justa e acabar entendendo um pouco mais sobre si mesma. Ela não cobra encontrar nos outros aquilo que ela é, se for pra ser, que ela seja pronto acabou. Muito menos aquilo que ela não é. Ela sempre gostou de ser a protagonista ou a antagonista da sua própria história, de levar a responsabilidade de ela mesma ter o papel de ser e não ser o que bem entender, ter a responsabilidade de acertar e errar. Ela não espera nada dos outros nem dela mesma, porque esperar é querer parar, é querer estabilizar, é querer controlar. E ai ai ai, controle ela não tem. Incerta ela é. Pensar e agir ela nunca para. Não necessariamente nessa ordem, até porque Espontânea é seu nome do meio. Ela procura estar bem para refletir o bem. Ela não gosta de brigas, prefere conversas. Ela não gosta de estresse e por isso vê tudo pelo lado positivo, afinal pra ela tudo é questão de ponto de vista. Ela não gosta de rotina e de planos, mapa então, nem se fala... Ela não gosta que coloquem palavras na sua boca. Ela gosta de ser única e singular como qualquer outra pessoa. Ela não é perfeita e por isso ama mudanças. Ela tem medo de ser julgada, mas aprendeu que querer ser o que todos querem é o mesmo que não ser nada. Ela descobriu que ela faz tudo por ela e não pra provar alguma coisa para alguém, quem viu, viu, quem não viu, quem sabe algum dia veja. Ela se acha engraçada e é a pessoa que mais ri de si mesma. Ela nem sempre gosta do que vê no espelho, mas na maioria das vezes sim. Ela gosta dos cachinhos dela e do seus olhos terem tons diferentes.  Ela não se arrepende de nada, pois o passado não volta e todo erro tem algum conserto. Ela aprendeu a perdoar, não por pena, mas para se dar a paz de que precisa. Ela acredita que respeito é tudo, respeitar o tempo, respeitar o lugar, respeitar o outro, respeitar a si e suas vontades. Ela quer que você dê a atenção de que ela precisa, mas também se não quiser ela prefere que não dê, porque ela também não suporta fazer as coisas sem vontade. Ela gosta de correr atrás daquilo que deseja e não perde oportunidades por orgulho, mas também sabe a diferença entre persistência e insistência. Ela não gosta de hipocrisia, contradições e mentiras, mas entende se você precisar delas para tentar se encontrar. Ela sabe que no final é isso que todos buscam, mesmo que alguns ainda se escondam no meio do medo de não ser o que esperavam. Ela sabe que todos querem uma segunda chance, todos querem ser melhores, todos querem um ouvido ou dois pra ser compreendidos ou pelo menos aceitos. Ela sabe que todos querem se desprender dos medos e serem espontâneos, serem livres, serem eles mesmos. Ela sabe que é o que todos querem, e por isso ela leva o papel de dar o que ela e todos gostariam de receber. E é por isso que ela não vai pedir pra você ficar. Ela vai te dar a liberdade de ser e fazer o que você bem decidir, sem rancor, sem pressão e com muita compreensão. Porque ela entende que todo mundo tem o direito de ser o que quiser e que ninguém deve nada a ela além de ela mesma, afinal a vida dela é só dela, a sua vida é só sua. E assim, ela vai te dar a chance de ser o que ela é, espontânea. -Luísa Monte Real

Ela

 
 
     Uma mãe. Uma esposa. Uma tia. Uma prima. Uma sobrinha. Uma irmã. Uma filha. Uma mulher. Tudo em uma só. Carrega o peso de mil personagens, mil histórias, erros, dores, acertos, alegrias, perdas e ganhos em um só coração. E que coração... Esse coração não é de pedra não, mas é forte como uma. Esse coração não é mole não, mas é aconchegante como pluma. É um coração paradoxal, mas que funciona. É o coração dela e sem posse algum entrega nas mãos do mundo. Ele pode até ter algumas cicatrizes e manchas, mas pra mim é o que o deixa mais bonito. É o que dá a sua singularidade, é o que faz com que em meio ao mundo em que foi entregue todos saibam "é dela". Só ela sabe como foi difícil torná-lo assim. Só ela sabe quantas vezes ele quis desistir. Só ela sabe como ele foi teimoso e preguiçoso nas lutas. Mas ela nunca o abandonou, ela nunca desacreditou, ela sabia que haveria um retorno de todos os sacrifícios que passou e ainda passa para permacê-lo assim como uma porta de boas vindas, um lugar gostoso, calmo, leve e com muitas energias positivas circulando por ele. Ela sabia que assim ela poderia se tornar a mulher de hoje. Ela sabia que assim todas as suas cicatrizes seriam sempre fechadas, sem jorrar sangue em si mesmo e nos outros. Ela é assim, forte e delicada. Porque a fortaleza está na abertura das gentilezas, e a fraqueza na barreira das grosserias. E hoje, ela se olha no espelho e o reflexo é um brilho simples, um brilho que não ofusca os outros, mas ilumina. Não há quem não se inspire nela, não há quem não a admire, não há quem não queira receber um pouquinho do seu coração. E ela é assim, não dá nem pra sentir inveja, traz só a vontade de ficar adorando, de querer receber sua luz e de um dia quem sabe ter uma singularidade, não igual a dela, mas que seja capaz de amar como ela. - Luísa Monte Real

Foto: Beth Romano

Quando perdoei

   Uma certa manhã me peguei e tinha te perdoado. Descobri que foi algo de tempo. Descobri que foi sem eu querer ou perceber. Eu percebi que perdoei quando naquela manhã, descobri que eu não sentia mais pelos seus erros. Perdoei quando estranhei a memória deles. Perdoei quando duvidei que tudo não tinha passado de um pesadelo, e que nem traumático este tinha sido. Perdoei quando me peguei pensando: "Você realmente fez isso? Nossa nem dá pra acreditar, que doideira!". Perdoei quando a lembrança era só memória e não doía mais, como um filme. Perdoei quando superei. Perdoei quando olhei nos teus olhos e te amei mais ainda apesar dos pesares.  Perdoei quando olhei nos teus olhos e soube que valeu a pena não ter desistido. Perdoei quando meus machucados estavam cicatrizados e eu senti surpresa ao ver que no seu corpo eles estavam igualmente tatuados. - Luísa Monte Real 

Um assunto, outro assunto

    Às vezes a gente tem essa coisa de querer mostrar que ama a pessoa, que se importa, e se sente até na obrigação de sofrer, mas hoje sei que não tem nada a ver. Acredito que se houver amor próprio poderá então, haver amores inigualáveis e inimagináveis pelos outros. Tenho pena de quem pensa que se amar significa não correr atrás, ignorar, não demonstrar que se importa e fazer pouco do outro. Isso não passa de orgulho. Sempre achei que mentir para mim mesma fosse a pior opção. Uma vez li: "não dê valor para as coisas por quanto valem e sim pelo que significam". Veja bem, é lógico que há um limite, não estamos falando de amar o outro mais do que a si mesmo. É incrível como quando alguém que eu amo me decepciona, meu sentimento por ela vai diminuindo aos poucos a cada decepção, automaticamente, sem que eu tenha que desprezá-la. Amar-se é fazer da felicidade dependente de você e somente, você. Preservar nosso coração e não deixar que a dor acabe com os nossos sorrisos, nem que o outro abale as nossas estruturas. Se entregar sem medo, pois você sabe que nunca se abandonaria. Não dizer: "ele não te merece, ele é um idiota, esqueça-o, ignore-o". Diminuir alguém nunca fez eu me sentir melhor. Quando a gente se ama, a gente não se permite fazer escolhas que não se tira proveito. A gente corre atrás do que quer, se quebrar a cara, conserta e segue em frente. - Luísa Monte Real 

Três anos em três dias

                                            

Nunca gostei de despedidas. Mas foi assim que ele me disse adeus. Numa madrugada de meus desabafos sobre seus defeitos ele resolveu que iria partir. Três longos dias de conversa tentando resolver o imprevisto que depois viraram um mês de conturbações e discussões. Estava convencido de que era um tremendo canalha e não poderia me machucar de forma alguma. Confesso que já vacilei com ele muito mais do que o oposto. E olha, que ele sempre foi o badboy e eu a "mimada" como ele dizia, só para me irritar. Tantas coisas foram ditas...Tentei convencê-lo de que essa ideia de seu medo sobre um futuro incerto era um desperdício de tudo que sentíamos e construíamos. Falei e repeti todos os meus argumentos e de nada adiantou. Uma prova de amor linda esse seu sacrifício, porém um sacrifício à toa. Pedi que ele se amasse mais, se cuidasse e pensasse mais nele... Mas ele não tirava a ideia de que queria o melhor para mim e disse que me amava, como uma irmã, repetidas vezes. Mas ele não entendia, ou não se achava bom o suficiente para aceitar que o melhor para mim no momento era ele ao meu lado como sempre foi nesses últimos três anos, e eu realmente não estava me preocupando com o futuro. Disse que eu não iria deixar de ser quem eu sou para ele. Disse que eu não estava perdendo-o e que ainda seriamos amigos. Disse para eu não me preocupar com ele, mas eu sei como ele vai se perder... Dói. Dói não ter ele. Dói ter que aceitar uma decisão que não é minha. Dói saber que ele não quer isso. Dói pensar na dor dele. Dói pensar no modo como ele vai cair nas bebidas. Dói pensar que ele já estava mal pela ex e agora deixou a melhor amiga. Uma saudade sem tamanho. Uma pena de um sentimento recíproco e tão lindo ser deixado desse jeito. Ah, porque a gente se ama demais, aquele amor que acolhe, protege e um faz tudo pelo o outro. A gente se somava, a gente era único. A gente tem é muita história, muitos obstáculos vencidos e alguns para vencer, muitas alegrias, muitas brigas e principalmente, muitas diferenças. Apaixonei-me imensamente pela conquista de ter criado algo exclusivo e mágico com ele. Ainda tenho a foto do desenho da rosa que fez para mim, e pretendia encontrá-lo para dar-me o desenho real para eu guardá-lo comigo, para sempre... Ele era meu anjo da guarda. Eu era seu porto seguro (ou terapeuta com consultas grátis, se preferir). Ele era o Wikipédia sobre mim (tão stalker que descobriu meu ultimo sobrenome e nem sei como). Eu era o seu diário. Ele era minha criança - aff tão imaturo-. Eu era sua "certinha demais". Ele era meu estressado. Eu era sua doidona. Nós éramos irmãos de pais diferentes, nós éramos duas peças de quebra-cabeça distintos que pelo destino se encaixaram. A gente se fazia feliz, muito feliz, apesar das brigas, birras, e mil e um obstáculos que fariam qualquer um desistir e cair fora... A gente era Romeu e Julieta amigos. A gente era. Talvez a gente seja. Talvez o tempo mostre que ele está certo. Talvez o tempo nos una de novo...E ele disse para eu ficar bem. E eu disse que daria Feliz Ano Novo para ele no dia seguinte. - Luísa Monte Real

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