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Cansei de Ser Linda


Hoje eu vim falar que eu cansei de ser linda
Eu cansei de andar na rua e ouvir assovios quando estou indo pra faculdade com uma roupa qualquer
Eu cansei dos olhares que me perseguem
Essa falta de sensibilidade, educação respeito
Respeito do meu espaço
Cansei de ser sua
Porque meu amor, não deixam eu ser minha?
Cansei de andar na rua e ouvir "linda" como se alguém tivesse pedido sua opinião
Cansei de andar como se estivesse na terra de outro
Essa terra é minha também
Cansei de ouvir "cuidado com esse decote"
Cansei de ouvir que ciúmes é o amor que sinto por você
Cansei de ouvir que homem não sabe ser amigo
Cansei de "friend zone" como se eu só servisse pra servir
Cansei de ser chamada de louca quando você erra e não tem capacidade de conversar
Sobre sentimento
Cansei de ter que ser desejada e nunca desejar
Porque senão, eu sou puta
Cansei de calar
Cansei de ouvir " nossa que cara de santinha, novinha. São as piores."
Cansei de ser linda porque talvez você nem ache isso mas quer me comer
Cansei de ouvir que só sou feliz se casar
Mas se o homem casa, ele diz que a diversão acabou
Cansei de ser linda porque quero ser muito mais
Quero ser inteligente, corajosa, forte, dona do próprio negócio, simpática, legal, engraçada, interessante
Eu quero ser interessante. - Luísa Monte Real


Mulher

  Sim, sou mulher, felizmente. Sou guerreira com muito orgulho nesse mundo onde o homem vive. Engraçado que ele é animal quando lhe convém, na hora de falar de "instinto" e "impulso", mas na hora de mandar é patrão e muito superior, quase rei. Felizmente sou mulher pra saber das dores e dos erros dessa sociedade. Descobri hoje que eu já sofri muito abuso sim. Nunca fui "piranha", nunca tive um corpo cheio de curvas, nunca usei roupas "indescentes", e se usasse, o problema era de quem? Já sofri diversas vezes como qualquer outra, com ou sem roupa. Engraçado né? Hoje quero contar uma dessas minhas histórias. Nessa história duas pessoas são vítimas. Eu e meu parceiro. Meu parceiro era machista, foi educado assim, sua família era assim, seu grande herói era assim, seus filmes prediletos eram assim, seus amigos eram assim, suas amigas eram assim. Sua insegurança era do tamanho do mundo, sua sede de controle para não sofrer e não fazer sofrer era do tamanho do mundo. Mas eu cheguei, toda feminista, cheia do amor próprio e jeito independente de ser, achando que me controlaria, achando que estava no meu próprio comando. E então me apaixonei. Me apaixonei por meus motivos que não vem ao caso agora. Aos poucos fui descobrindo na prática como era ser dominada por você e você sabia fazer isso tão bem, era inconsciente eu sei, era o jeito que te ensinaram. Ter você tornava-se cada vez mais um vício como qualquer amor e paixão, até você fazer doer, eu abrir meus olhos e eu dar um passo para trás. Ao mesmo tempo você se viciava no controle para conseguir me amar sem se machucar, até me ver chorar e perceber o seu erro, dizer que eu merecia coisa melhor, e me fazer derreter com aquela sua voz de cachorro pidão... Aconteceram algumas vezes até você criar confiança em mim. Mas até lá, muitas lágrimas já tinham rolado, minha autoestima já estava desgastada por tanto controle, por tantas mudanças que tive que fazer para me enquadrar nas regras que você desejava, no tanto que eu me entregava e não recebia na mesma moeda. Eu me perdia em você totalmente, você me fazia acreditar que eu era sempre a culpada e quando o contrário, eu tinha que aceitar que era seu jeito de ser e que eu entrei nessa já sabendo disso. Não estou aqui para crucificá-lo, ele não fez por mal, não era pessoal, eram os problemas dele com ele mesmo se refletindo em mim, era sem pensar, era imaturidade, eram mil e uma razões. Estava esperando ele construir toda sua segurança em mim para então conseguir o relacionamento que eu desejava, que eu merecia. As pessoas veem o relacionamento abusivo como se o homem estivesse realmente pensando em "vamos ter esse tipo de relação com ela", e não é assim, é algo muito mais complexo, é enraizado no homem sem nem mesmo que ele perceba. Não estou defendendo, coloquei minha visão feminista para ele muitas vezes, mas reeducar não é simples assim e por isso venho contar essa minha história. Eu sei, eu tava nessa relação porque quis. Eu sei, pode me julgar, falar que sofri porque quis. Eu sei, pode me julgar e falar que não tive amor próprio, que me submeti, que fui trouxa, hipócrita. Eu sei, eu deixei isso acontecer. Mas a errada não continua sendo eu, de errado e imoral não fiz nada, não sou errada por acreditar, confiar e ir atrás do que eu quero. Nenhuma pessoa merece tal tratamento, nem mesmo aquela que erra com a lealdade, com compromisso. Porque ninguém é merecedor de abuso seja ele psicológico ou físico, ninguém merece ser tirado de sua essência e se sentir desmerecedor de qualquer coisa que há no mundo. Mas deixa ao menos me justificar se você acha que procurei por isso. Sou uma jovem sonhadora que sempre lutou por aquilo que quis, que sempre acreditou que todos merecem uma, duas, três chances, que as pessoas mudam (e isso é verdade porque em um grande tempo ele teve sua confiança em mim e os abusos emocionais pararam nessa época). Eu estava apaixonada e sou uma menina muito inexperiente, queria sentir o sabor de ser correspondida, queria ver as cores do amor. Eu havia me doado completamente, não conseguia ser quem eu era, eu era completamente dependente, e nada mais importava do que conseguir ficar com ele, nem mesmo eu. Não sei explicar como isso aconteceu, sempre me respeitei, aprendi a me amar e joguei tudo fora por ele, nunca havia me abandonado de tal forma. O pior, é que eu sabia. Eu era bem informada. Eu sabia que estava nesse tipo de relacionamento, mas não conseguia sair. Depois de um tempo sem inseguranças quando tudo estava bem, sem brigas nem nada, ele resolveu mexer com o passado e cutucar a fera que estava dormindo. Ele pirou, era um ciúme doentio, ele acreditava com tanta certeza no que tinha em mente que me fez acreditar também e foi a gota d'agua para eu perder minha autoestima, fiquei me sentindo um lixo, uma pessoa negativa que estava fadada a acontecer tudo de errado, que eu só fazia os outros sofrerem. Não, ele não me disse essas coisas, mas me fez senti-las. E eu nunca me humilhei tanto tentando provar quem eu era, me humilhei tanto que nem eu mesma sabia quem eu era, acreditava na versão dele, qualquer coisa que acontecia ou me falavam eu levava como ofensa, chorava por coisas idiotas, levava tudo para o pessoal, desconfiava de tudo de ruim que as pessoas pudessem ver em mim, me sentia nervosa e culpada com coisas como  derramaram o refrigerante no chão e eu falava: "não fui eu." Tudo isso porque já nem sei mais quantas vezes em 4 meses passei o dia na cama chorando por brigas, sem comer, sem vontade alguma de fazer alguma coisa. Não sei como, mas você me sugava por inteiro. Dessa ultima vez meu nervoso foi tanto que cheguei a vomitar, me sentir enjoada e ter dor de cabeça já eram fatos quando brigávamos. Pode até ser que te magoei algumas vezes, mas não foram metade do que fez comigo, me desvalorizava e me desqualificava de uma forma que nunca pensei que alguém pudesse fazer comigo. Ele chegou a ameaçar que se ele voltasse comigo eu ia sofrer, que iria ser do jeitinho dele como se todo esse tempo alguma vez tivesse sido da minha maneira... Ele falava coisas que me faziam acreditar que namorar qualquer outra pessoa era melhor do que eu.  Dizia que seu ciúmes era porque ele sabia exatamente como um homem é por ser um, engraçado que ele nunca tentou ser diferente, né?! Dizia sempre que se quisesse ser corno namorava uma piranha, uma puta. Dizia que eu o fiz de otário. Fazia-me sentir desmerecedora de seu amor, e eu desejava tanto que ele me amasse e enxergasse que eu era diferente de todas suas anteriores. Queria ser especial, queria ser única para ele, e parte de mim ainda espera que eu tenha sido... Ele conseguiu atingir até mesmo o que tenho mais de especial, puro e sincero, a escrita. Cheguei mesmo a me achar a bosta em pessoa, desculpe o palavreado, mas para falar dessa sujeira só o palavrão se encaixa. Ele me fez ter medo dos homens, me fez ter nojo, não queria ser encostada, nem olhada que iria doer, estava em cacos, e você sabe, vidro corta. Toda a insegurança dele que eu quis resolver havia se estabelecido em mim, qualquer passo que ele atrevia fazer virava uma neurose pra mim, um leque de opções do que ele estaria planejando para se vingar, pra me machucar. Completamente irracional, afinal ele nunca havia feito nenhum plano pra me machucar propositalmente. Eu tinha um medo enorme de ser julgada por qualquer pessoa. Foi amor demais por ele e de menos por mim. Sempre prezei muito o amor próprio, mas me encantei em mergulhar de cabeça porque sempre fui tão reservada com medo de amar. A única coisa que me orgulhei de mim foi que a minha força sempre esteve presente, fruto do meu amor próprio, me sentia acolhida por mim mesma nas vezes que terminávamos, e mesmo acabando comigo mesma, em dois dias eu já estava sorridente e com paz novamente. O que eu não sabia era do desgaste que estava vivendo. É que eu mal reformava minha autoestima e já tava dando a ele minha cara a tapa novamente. A minha sorte foi estar ao lado de pessoas guerreiras como eu que sem me julgar me acolheram muito bem, fazendo-me lembrar de quem eu sou e que me amo. Não, não voltarei a ser reservada, nem a desacreditar do amor, o que houve não teve nada a ver com falta de sentimento recíproco, mas também espero que eu nunca mais volte a me abandonar por alguém, não importa o quanto doa ficar sem a pessoa. Gostaria muito que um dia ele lesse essa minha história, mas não sei se ele seria maduro o suficiente para não levar como ofensa e não dizer que eu sou a miss vítima certinha como muitos homens e até mulheres irão dizer. Não quero ofender ninguém nem me colocar como vítima, só mostrar como a educação e a moral dessa sociedade levam uma mulher a se odiar e ter nojo de estar na própria pele, ao mesmo tempo que ensina o homem a domar "SUA mulher". Sou mulher, e fui ensinada a competir com outras mulheres enquanto os homens riem e seus egos são alimentados por tudo isso. Fui ensinada a ter inveja, a querer ser mais que as outras, a achar que todas querem "roubar meu homem" - vamos combinar que ninguém é de ninguém e se ele me trocar a culpa não é da outra mulher, nem minha, é dos próprios gostos e vontades dele -, a achar que existe uma inimizade entre nós, a achar que sou menos se um homem não me quer e se não me enquadro na "santinha, pra casar". Sou mulher, sou guerreira como aprendi a ser, como todas ao meu redor merecem ser. Todas estamos dentro de uma luta contra toda essa coisificação da mulher, um grande número de mulheres ainda não enxergou essa luta e se esconde na máscara de ter que se submeter para satisfazer e agradar o homem. Agora só espero me recuperar com muita força, poder perdoa-lo e a mim mesma, espero guardar somente as lembranças boas dele e levar comigo tudo o que ele me somou, se é que somou algo além do meu próprio aprendizado. Não importa o que aconteceu comigo, não importa a destruição que fizeram aqui dentro, nada disso define quem eu sou, eu sou o que me torno depois disso, eu sou o que escolho ser e até mesmo o que deixei de ser, eu sou reencontro com o eu que perdi. Eu sou amor próprio e amor por aí. - Luísa Monte Real
  

A hora das borboletas



    10h da manhã de Sol as borboletas saem para beijar as flores. Algumas são beijadas de volta, outras são rejeitadas, outras se beijam e as flores se juntam para dizer que é falta de flor. Outras voltam no dia seguinte e outra borboleta já está em seu lugar. Outras nunca nem acham uma para beijar, outras já cansaram daquele beijo mais ou menos de flores murchas. Outras estão esperando flores que parecem nunca desabrochar, outras são negadas por ter beijado mais de uma flor. Outras deveriam ser maiores, deveriam ser menores, mais coloridas, menos coloridas, prefiro as rosinhas, as marrons parecem mariposas, quem gosta de mariposas? Asas muito pontudas, asas muito redondas essa dança demais tem que ser mais discreta, essa dança de menos BLAHBLAHBLAH AAAAAHHHH CHEGA! Elas estão tontas, vão e voltam, giram e finalmente, caem. Tanta cobrança, não se encaixam e outras fingem se encaixar. Quebradas por dentro. Cansadas.
    O fato é que todo dia é dia de desilusão e decepção com flores que não chegam a metade das suas expectativas. Mesmo assim, todo dia as 10h elas dançam com suas asas coloridas levando um pouco de cor e beleza para o mundo. Beleza. Elas também cansam disso. As flores querem sempre as mais bonitas. E mesmo as mais bonitas são sempre substituídas por outras, porque sempre vai existir uma que a deixe menos perfeita. Descartáveis e reutilizáveis. Nunca boas o suficiente, mas sempre aceitáveis. Às vezes elas só queriam que as flores se desprendessem de suas raízes e fossem dançar com elas, dando ao mundo um novo sentido, mas elas não acompanham. E as borboletas cada vez mais dançam e menos beijam. E isso as faz um pouco desesperançosas e até solitárias naqueles dias mais frios em que o Sol resolve se esconder por detrás das nuvens. Aquele dia que não se diferencia as 10h da manhã do meio-dia.  E então ela resolve beijar uma flor novamente para ver se algo mudou. O cheiro? O mesmo. O beijo? O mesmo. A cor? A mesma. O desabrochar, cadê?! As cobranças? As mesmas. Quanto tempo mais esperar? E aí, ela já nem liga mais, ela nem insiste mais e prefere se juntar a uma causa maior e se unir por um mundo de mais amor às borboletas que tem tanto para dar mas que poucos sabem receber. E então elas resolvem receber tudo aquilo que passaram a vida toda tentando dar e nenhuma flor soube cuidar. Amor.  Respeito. E a liberdade, que apesar de sempre terem tido asas, nunca antes haviam se permitido a dar-lhes sua real função. Voar e o vento beijar. -Luísa Monte Real

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